Recém formados ajudam pequenas empresas a inovar e se tornam saída para melhorar economia local

Como se faz em dia de jogo de futebol, um grupo de colegas se reuniu, sentou à mesa, virou alguns copos e conferiu os smartphones, à espera de uma classificação. Era final de abril, num fast food que fica na Orla de Salvador, e os interioranos estavam dispostos a rir ou chorar juntos, ansiosos pelo ultimato de uma seleção iniciada em janeiro. Sessenta deles, no total, já haviam passado para a última fase, mas só 40 seguiram em campo, contratados até 2019.

Bolsistas selecionados e capacitados pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), eles devem ajudar, até setembro, 1.600 pequenas empresas de oito regiões da Bahia a tentar superar desafios de crescimento, tornando-as mais competitivas por meio de ações inovadoras. No caminho, os recém-formados ganham musculatura empreendedora e não deixam que pequenos comércios, serviços e indústrias fechem as portas.

“Tenho aprendido que o universo empresarial tem suas especificidades e mesmo que minha formação em Psicologia me ajude a perceber pessoas, ler contextos e comportamentos, é fundamental essa separação entre as profissões”, avalia Laís Santos, 26 anos, graduada pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

Ela, assim como a professora de biologia Ediane Eduão, a advogada Clara Carvalho, o administrador Danilo Carvalho, o engenheiro florestal José Linhares e seus colegas com outras formações acadêmicas já não atendem necessariamente pelo título que consta no diploma de graduação. São, hoje, agentes locais de inovação (ALI), integrantes de um programa de mesmo nome, e têm a oportunidade de ajudar a terra natal ou aquela que escolheram para viver.

Cada agente, orientado por um consultor e um gestor do Sebrae, faz diagnósticos, propõe melhorias e acompanha o avanço de empresas de pequeno porte (EPP) por cerca de dois anos, sem cobrar nada por isso. O Programa ALI é fruto da parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), órgão ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações que apoia a pesquisa no país, e deposita aos agentes uma bolsa mensal de R$ 4 mil. 

No centro de Jacobina, o administrador Danilo Carvalho, 26, bate à porta de, no mínimo, quatro comércios de autopeças por dia. Pela primeira vez, o município tem um agente. O desafio dele, novato na cidade, é apresentar aos empresários os benefícios da inovação. “Programas como esse podem ser a mola propulsora para que eles ultrapassem cenários de crise e consigam novamente se sustentar no mercado”, analisa Carvalho.

O ALI acontece em todo o território nacional, desde 2010. De lá pra cá, 8.064 agentes estiveram em campo, atendendo 294.133 empresas, 7.075 negócios somente na Bahia. “Nosso último acordo firmado com o CNPq, em 17 de abril de 2017, tem seu prazo de vigência até 2021”, afirma Marcus Bezerra, gerente adjunto da Unidade de Acesso à Inovação e Tecnologia do Sebrae Nacional.

A previsão, segundo ele, é de investimento de R$ 134.634.000,00 no referido período. Dentre os principais resultados do trabalho desses jovens recém-formados - a maioria do gênero feminino e oriunda de faculdades públicas -, destaca-se o aumento no faturamento de 35,3% dos empresários acompanhados e diminuição dos custos em 30,3% dos casos.

Novidade para todo mundo
O caminho da inovação é desafiador para as empresas - muitas ainda não resolveram questões básicas de gestão e sequer sabem por onde começar a inovar. Mas é igualmente inédito para os ALI, alguns sem experiência profissional em seus respectivos campos de atuação por estarem fora da universidade há, no máximo, dois anos.

“O jovem que sai da universidade é muito cobrado sobre as experiências profissionais, mas muitas vezes só participou de estágios dentro da instituição de ensino”, ressalta José Linhares, 27, com graduação pela UFRB. Para o engenheiro florestal, o programa promove a maturidade que o mercado exigiria dos recém-formados e ensina sobre empreendedorismo, algo que na visão dele nem todas as faculdades abordam.

Bacharel em Direito pelo Centro Universitário de Brasília (UniCeub), a bolsista Clara Carvalho, 26, retornou à Santa Maria da Vitória, oeste da Bahia, e acabou de mudar-se para Barreiras, na mesma região. Ali, dará continuidade, com uma nova cartela de empresas, ao trabalho começado por outros agentes antes dela. “O programa me proporciona conhecer a realidade do empresariado local e acrescenta muito, não só como advogada, mas como profissional no sentido mais amplo da palavra”, reflete.

O professor Renato Garcia, do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), considera que o impacto de qualquer programa de estímulo à inovação se dá sempre no longo prazo. Mesmo que para ele o agente local deva ser um profissional com experiência na implantação de projetos de inovação e de melhoria em empresas, é importante capacitação, formação acadêmica superior e que seja da região em que atua. 

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