PESQUISADORES DA UFRJ ABREM PRIMEIRO CROWDFUNDING CIENTÍFICO DO BRASIL

Desde 2016, o desenvolvimento da ciência no Brasil tem sido travado por cortes de orçamento, pela anexação da pasta de comunicação ao Ministério da Ciência e pelo sucateamento das universidades públicas. A situação, apesar de preocupante, serviu de incentivo para um grupo de cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) criar uma alternativa na rede: o primeiro site de financiamento coletivo (ou crowdfunding) do Brasil voltado apenas para pesquisas científicas, o Entropia Coletiva.

A plataforma funciona como outras do gênero: trata-se de um portal que conecta potenciais investidores a pessoas precisando de verba para desenvolver seus projetos. Dentro do site, qualquer um pode doar o quanto quiser para a pesquisa que julgar mais interessante – e, em tese, a liberdade se estende também aos pesquisadores.

“Para que uma proposta seja aceita no Entropia, o autor deve demonstrar método científico e meios materiais e intelectuais para desenvolvê-la, como o acesso a um laboratório, por exemplo”, explica o biofísico Frederico Reis, que em 2016 fundou a plataforma junto da neurocientista Patríca Bado.

Em um pequeno escritório alugado no Centro do Rio de Janeiro, eles realizam uma espécie de triagem das pesquisas que chegam diariamente ao portal, buscando “garantir a seriedade das propostas e evitar falsários”.  Embora tenha começado com foco em biologia, química e matemática, o Entropia deixou de restringir disciplinas e hoje abriga temas tão diversos quanto a visão de Freud sobre a obesidade e a concepção de ciência dos quilombolas, por exemplo.

O livro Experiências tropicais de angústia, da historiadora Natália Fontes Rodrigues (UFRJ), foi um dos vinte projetos viabilizados pela plataforma. Ela arrecadou R$ 9.855. “Um orçamento científico grande pode chegar a R$ 100 mil. Estamos começando com pouco e, por enquanto, tem dado muito certo”, diz o fundador. 

Piorizar projetos menores é quase uma estratégia política do Entropia, que não tem como objetivo se tornar um substituto do investimento estatal. “Isso não acontece em nenhum país desenvolvido. Nos Estados Unidos, cerca de 80% da pesquisa científica é de responsabilidade do Estado porque os riscos são altos demais”, afirma Reis.

A meta, ao contrário, é que a plataforma seja uma “alternativa pontual e emergencial” destinada a arrecadar verbas para a realização de pequenos estudos de campo e para a publicação de artigos científicos, por exemplo. “Às vezes a pessoa quer fazer uma pesquisa grande, mas não tem condições de publicar um artigo preliminar que poderia justificar o financiamento estatal para a tal pesquisa”, explica o biofísico. “Sentimos que o Entropia pode atuar aí, quase como um incentivo”.

Além de propor novos caminhos para o financiamento da ciência no Brasil, o site busca aproximar a pesquisa científica da população, muitas vezes excluída da produção do conhecimento restrita à academia e às suas publicações de nicho. “Se o Estado entende que a população não tem interesse em ciência, fica mais à vontade para fazer cortes orçamentários na área”, diz Reis.

De fato, em junho de 2016, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações foi fundido ao de Comunicações. A nova pasta ficou responsável pela manutenção e pelo financiamento de laboratórios universitários, de unidades de pesquisa e de bolsas de estudos, mas em 2017 sofreu um grande corte no orçamento: de R$ 5,8 bilhões, apenas 3,3 bilhões foram liberados pelo Governo Federal, um corte de 44% – sendo que aproximadamente R$ 700 milhões são destinados às Comunicações. Em 2010, quando a verba da ciência alcançou um pico, o orçamento previsto era de R$ 8,6 bilhões.

“O fim do Ministério da Ciência foi um retrocesso de 50 anos, mas a comunidade científica não conseguiu reagir com tanta força quanto o pessoal ligado à cultura quando o Ministério da Cultura quase foi dissolvido, em 2017. Tentamos fazer uma Marcha da Ciência no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas houve pouca adesão. Se o cientista não consegue mobilizar sua própria comunidade, que dirá a população?”, questiona o biofísico.

Neste cenário, o objetivo do Entropia é informar a população sobre a ciência produzida no Brasil e deixar que participe dela. “O que nós queremos”, resume Reis, “é que o máximo possível de ciência saia do papel no Brasil”.

Fonte: Revista Cult e RMI